África – como a vemos...
Não é fácil discorrer sobre qualquer assunto que corresponda ao tema preconceito. No Brasil, cada vez que este tema é colocado em evidência, são interpeladas tantas nuances, são tantos “mas...”, com a classificação imediata de “mimimi”, que deveria ser estabelecido ao menos uma semana de reflexões sobre o tema nos canais abertos de TV, em horário nobre. Talvez assim, as pessoas parassem para ouvir e, quem sabe, começassem a refletir.
Mas é claro que eu estou sonhando alto. Vertiginosamente alto. Se até os mais renomados jornalistas de emissoras conceituadas, que possuem discursos reconhecidamente politicamente corretos, não enxergam o preconceito internalizado em expressões que verbalizam, a ideia da semana de reflexão torna-se claramente apenas um sonho mesmo. Um dos maiores preconceitos veiculados por jornalistas é não individualizar os países do continente africano. Quando se referem à Europa, individualizam a notícia – Portugal, Itália, Alemanha, etc. Porém, quando se referem à África, o fazem falando sobre o continente. Às vezes, ao longo da reportagem, fazem referência ao país, quando o fazem. Mas nesse caso, a referência já perdeu forças.
Certa vez, uma jornalista renomada da maior emissora de TV do Brasil, em um jornal de abrangência nacional no turno da manhã, ao falar sobre uma tragédia ocorrida no continente africano, verbalizou a seguinte expressão: “africano mata africano”, dando à expressão o tom de incredulidade. E eu imediatamente pensei: mas brasileiro mata brasileiro o tempo todo!
“Africano mata africano”, em primeiro lugar, subtrai a cada africano o direito de ser pertencente a uma etnia ou a um país. Ela não se referiu à tragédia falando de compatriotas matando compatriotas, ou etnia matando etnia. Ela simplesmente generalizou o continente. Homogeneizou a África. E com isso, contribuiu para um erro muito comum entre nós – colocar a África como país, ao invés de continente. Seria como se algum jornalista estadunidense, ao abordar a violência no Rio de Janeiro, dissesse: “sul-americano mata sul-americano”, nos negando o direito de sermos reconhecidos como brasileiros ou até, mais especificamente, como fluminenses, ou ainda... os moradores do estado do Rio de Janeiro!
Além disso, a expressão também nos indica, uma ideia de solidariedade obrigatória. Pelo simples fato de serem africanos, teriam que ser unidos, leia-se, já sofrem tanto, coitadinhos. Ou seja, aqui no Brasil, lugar de origem da referida jornalista, há brasileiro escravizando brasileiro, tanto em áreas rurais, quanto em produções fabris nas cidades grandes; há brasileiro matando brasileiro, tanto nas regiões de disputa de terras, quanto nas grandes cidades dominadas pelo tráfico de drogas. Contudo, por ser daqui, ela até inconscientemente, reconhece nossa heterogeneidade e nossos conflitos socioeconômicos. E por isso, não nos obriga à solidariedade. Por mais estranho que isso possa parecer.
Outro aspecto muito comum em relação à ideia de solidariedade obrigatória para o continente africano, é também o mais usado por aqueles que relativizam o terror da escravidão. Esses alegam que: “mas eles mesmos se escravizavam...”, expressão que sem análise histórica, apaga a culpa do escravizador não africano. Quando alguém usa esse argumento em um diálogo comigo, eu começo afirmando: é verdade! Da mesma maneira que judeu escravizava judeu (está na Bíblia) ou europeu escravizava europeu (vide os povos chamados eslavos, porque a região era usada como “fonte” de escravos).
Mas é preciso deixar claro que isso acontecia por motivo de dívidas ou com os prisioneiros de guerra. A diferença mais importante entre a escravidão antiga e a moderna[1] é que aquela, além de acontecer por dívida ou por guerra, não trazia consigo o argumento de superioridade ou inferioridade intelectual/racial; enquanto esta, teve como argumento fundamental a inferioridade intelectual/racial. A negação da alteridade do não branco justificou a escravidão moderna.
Enfim, não adianta estabelecer feriado sobre o dia da Consciência Negra, se até os afrodescendentes não têm o hábito de refletir sobre o assunto. Ou ainda, estabelecer uma lei como a nº 10.639, que obriga ao ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, se grande parte dos professores não estão preparados para trabalhar o assunto em sala de aula, ou porque nunca receberam / procuraram informação a respeito; ou porque reduzem a cultura afro-brasileira à religião, e, mergulhados no próprio preconceito, não conseguem sequer planejar ao menos um dia de seminário para abordar seriamente o assunto.
Por isso, seguimos desconhecendo um
continente inteiro que participou efetivamente na modelagem do Brasil de hoje.
Seguimos desconhecendo diversas culturas riquíssimas porque reduzimos a
diversidade histórico-cultural desse continente à capoeira, à religião ou aos
instrumentos de percussão. Seguimos desconhecendo a heterogeneidade de etnias,
idiomas e culturas que nos encantariam tanto quanto as europeias ou orientais.
Somos tão preconceituosos que preferimos perpetuar a negação da alteridade que
nos foi ensinada pelos colonizadores europeus e assim, desqualificamos qualquer
relação de aproximação cultural com o continente africano. Optamos por não
conhecê-lo!
[1] FINLEY, Moses. Escravidão Antiga e Ideologia Moderna. São Paulo, Graal, 1991.
Sobre a autora: Mônica Baptista Costa é historiadora, formada pela UFF, Bacharel em Teologia pela PUC-RJ e especialista em História Antiga e Medieval (Etiópia Medieval) pela UERJ
#OUÇAAVOZ

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