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O Que Houve Com a Luta Antirracista?

O Que Houve Com a Luta Antirracista?

                     


Podemos afirmar que vivemos um momento crucial para o desenvolvimento da sociedade. Pautas, antes ignoradas, estão tomando força e destaque na vida cotidiana do brasileiro. 

Termos como “fascismo” e “racismo” estão sendo repetidos em todos os canais de comunicação enquanto milhares de pessoas se organizam em protestos e manifestações ao redor do mundo. 

É importante ter em mente que tudo será em vão se nos esquecermos de manter uma postura crítica. Evolução social só acontece de fato se mantivermos os conhecimentos em movimento. 

O fascismo não é apenas uma ideologia, trata-se de uma estratégia desenvolvida para manter o poder dos interessados. O racismo também é uma estrutura pensada e sustentada para o mesmo fim, porém é a partir do racismo que o sentimento de dominação e superioridade surge. 

O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, evento que tem um pouco mais de 130 anos. Pessoas escravizadas continuaram marginalizadas e ignoradas pela etnia dominante. Não havia a menor chance de conquistar moradias, estudos ou empregos dignos e muito menos de ocupar cargos de poder. Essa dinâmica é muito séria, já que nenhum grupo étnico dominante vai parar para pensar em políticas inclusivas e nenhum grupo étnico marginalizado vai poder ocupar posições em que possa desenvolver tais políticas para o seu povo. 

Dentro desses poucos anos de abolição, o movimento de eugenia tomou força chegando ao país oficialmente em 1914. Para um projeto assim conseguir se estruturar em um território, esse território precisa ser racista. Necessariamente. 

A terra suja e negativamente fértil do racismo também deu origem aos integralistas que flertavam com o fascismo italiano. Fundado em 1932 por Plínio Salgado, a AIB (Ação Integralista Brasileira) era mais um reflexo da ideia de progresso e desenvolvimento associada a uma limpeza étnica. 

Quando enfatizamos a luta antirracial é justamente por isso. O racismo é a raiz de tudo. O racismo é a base da nossa sociedade e a terra fértil para o fascismo. 

Toda a movimentação mundial começou com o assassinato de George Floyd. Mais um assassinato claramente motivado pelo ódio de um policial branco pelos cidadãos pretos. 

Isso acontece aqui o tempo inteiro, porém não reagimos porque o brasileiro comete a desonestidade de nunca endereçar claramente a sua repulsa ao racismo. Aqui, uma manifestação não pode ser apenas antirracial. Precisa ser diluída em uma luta mais “abrangente” que na verdade está apenas desviando o foco inicial e principal no nosso país. 

Uma nação que se desenvolveu a partir de culturas e identidades destruídas em nome de uma única, que vive isolada em sua própria realidade, promove o desenvolvimento do incômodo que leva ao ódio em relação às outras. Qualquer tentativa de interação soa ao brasileiro branco como um incômodo. Encarar isso é urgente, pois as outras etnias estão morrendo e sendo praticamente extintas. 

Por tudo isso que a dinâmica atual dos protestos vem incomodando muitos movimentos negros. Parece que o brasileiro continua negando sua origem racista e evitando lidar diretamente com a raiz dos nossos problemas. A questão racial deixa de ser visível e os protestos passam a acontecer sob os termos do grupo étnico dominante. 

Quando um preto morre, ele vira palanque para qualquer outra causa. Nunca é o suficiente para o racismo ser protagonista. Pelo menos não no Brasil.





Sobre a autora: Deise Cardoso, mulher, mãe, atua como tradutora e, também, redatora freelancer.

 





                        #OUÇAAVOZ

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